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segunda-feira, 31 de março de 2008

SiGuiRiYa


Ay, yo no tengo, que yo no tengo
la puerta donde yo llamar
Que yo no tengo, ay, no terelo
la puerta adónde yo llamar

A Siguiriya é, entre os cantes, aquele que melhor reflete a dor e o sofrimento em suas letras, em sua melodia. Apareceu no final do século XVIII (período de formação em que a guitarra foi acoplada ao cante) e sua prática foi acentuada em princípios do século XIX. É considerado cante derivado das Tonás (pelo caráter e, também, pela musicalidade) por vários motivos:

  1. Ao que tudo indica, primitivamente, eram cantadas sem guitarra como, todavia, se cantam as Tonás.
  2. A maioria dos bons intérpretes de Tonás foram considerados excelentes “siguiriyeros”.
  3. As Siguiriyas mais antigas conservam um claro aire de Tonás.
  4. Os temas expressados nas letras são muito afins no que diz respeito ao dramatismo e ao ambiente vital.
  5. A conseqüente facilidade com que a Siguiriya e a Toná se alternam e/ou se complementam ao serem cantadas, dentro da mesma tonalidade.
  6. Como forma curiosa de métricas irregulares, encontramos letras de Tonás muito semelhantes às de Siguiriyas.

É um cante dramático, forte, sombrio e desolador, que é considerado como um dos estilos expoentes da essência jonda do cante flamenco. Suas letras são tristes, sentimentais e refletem a tragédia humana, seus sofrimentos e dores relacionados aos eternos temas de amor e de vida e morte. É um dos cantes mais difíceis de serem interpretados pela quantidade de matizes. É fundamental que o(a) cantaor(a) tenha domínio sobre o cante para interpretar os tercios na métrica musical de seu compás.

Três “escolas” e “núcleos de germinação” são reconhecidos nas Siguiriyas mais antigas: as que correspondem às comarcas cantaoras de Cádiz y los Puertos, Jerez de la Frontera e ao bairro sevillano de Triana. As Siguiriyas Trianeras, por seu arcaísmo, têm sido as menos interpretadas e divulgadas, prevalecendo as de origem gaditana e jerezana, que prontamente se fizeram mais populares.

Ricardo Molina nos diz que as coplas antigas e autênticas não possuem pretensões artísticas, literárias ou teatrais. Representam a queixa direta da alma e nada mais. É muito importante que levemos isso em consideração. Diversos cantes admitem expressar frivolidades do cotidiano, à Siguiriya está vedada essa possibilidade. São incompatíveis com sua música e com sua natureza. A Siguiriya é o grito do homem ferido por seu próprio destino admitindo, somente, sentimentos mais profundos.

O baile é, da mesma maneira que o cante, um dos mais jondos do flamenco. É seco, sóbrio, solene e não admite adornos fáceis. É interpretado com um compás lento e pausado. Combina passos de punteado com desplantes, que neste caso, são fortes redobles, incluindo a escobilla na parte mediana do baile. O passo fundamental consiste em um andar rítmico, com golpes secos e sonoros que levam o(a) bailaor(a) a avançar e a retroceder sobre o mesmo sítio.

A solenidade do baile se manifesta já na salida, caracterizada por um largo paseo. Pode ser bailada, indistintamente, por homens e/ou mulheres, mas, o “temperamento forte” é pré-requisito. O primeiro bailaor deste estilo (ou pelo menos quem foi responsável por sua difusão) foi Vicente Escudero e, posteriormente, a bailaora Pilar López - responsável pela introdução do toque de castanholas no baile por Siguiriya.

Glossário

  1. Cante: Conjunto de composições musicais em diferentes estilos que surgiram entre o último terço do séc. XVIII e a primeira metade do séc.XIX, devido a justaposição de modos musicais e foclóricos existentes na Andaluzia.
  2. Tonás: Cante flamenco pertencente ao grupo dos Martinetes, Deblas e Carceleras.
  3. Aire: Termo que descreve a expressividade, a atmosfera ou caráter geral de uma performance flamenca.
  4. Jondo(a): Adjetivo que se aplica ao cante flamenco mais puro.
  5. Cantaor(a): Artista que canta Flamenco.
  6. Tercio: Cada um dos versos que compõem uma copla flamenca.
  7. Compás: Medida de uma frase musical com sua acentuação correspondente.
  8. Copla: Forma poética tradicional do cante flamenco. (1) Canção popular. (2) Estrofe geralmente de quatro versos octossílabos com rima assonante nos pares.
  9. Baile: É a dança propriamente dita. Apresenta um caráter vivo e encontra-se em constante evolução, mas suas características básicas cristalizaram-se entre 1869 e 1929, a chamada idade do ouro do flamenco.
  10. Desplante: É uma ruptura no baile que pode ser uma maneira de fixar um remate nas escobillas ou de finalizar a interpretação de uma falseta. Diz de um movimento repentino do corpo e não é regido pela hamonía da sucessão. Ao contrário, surpreende o próprio corpo e, conseqüentemente, o espectador com um corte marcante com carga ímpar de inspiração, imaginação e criatividade.
  11. Escobilla: É o solo de piés do bailaor. Como para o cante existem os "ayeos" e para o toque existem as "falsetas", o(a) bailaor(a) demonstra sua técnica na escobilla.
  12. Bailaor(a): Artista que baila Flamenco.
  13. Salida: De maneira simplória, a salida representa o início do cante.
Referências de Vídeo:



Eva Yerbabuena, bailaora, Siguiriya



Alfredo Arrebola e Daniel Mora, Siguiriya



Carmen Reina, bailaora, Siguiriya

Referências na Internet

- Atenção! Referência obrigatória: Fonoteca de Siguiriyas
- Flamenco Word (Siguiriyas)
- Horizonte Flamenco (Siguiriya I)
- Horizonte Flamenco (Siguiriya II)
- Horizonte Flamenco (Siguiriya III)
- Horizonte Flamenco (Siguiriya IV)
- Horizonte Flamenco (Siguiriya V)
- Triste y Azul (Siguiriya)

Referências no acervo do Tirititrán:

- Audio: MATMP3003.
- Leitura: MATLIV001, MATAPO001, MATAPO002.
- Vídeo: MATDVD024, MATDVD046, MATDVD049, MATDVD054, MATDVD061.

Manu Ángel, bailarina, coreógrafa e professora de Flamenco assina este post.

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