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terça-feira, 1 de abril de 2008

TRíaDe FlaMeNCa – cante, baile e toque

Por Manu Ángel
em abril, 2008.

É comum nos depararmos a pergunta clássica dos alunos: "no Flamenco, o que surgiu primeiro? Cante, baile ou toque?".

É importante deixar claro que a questão aqui não é eleger favoritos nem definir e estabelecer hierarquia na “tríade flamenca”. Este texto tem menor pretensão: é um convite ao estudo. Quer investigar, buscar, levantar hipóteses, compartilhar e abrir espaço ao diálogo.

De la tierra, esa música viene de la tierra, viene de la contienda,
del asalto. del oscuro atropello de las arterias del planeta.
Viene de la preponderancia del fuego, del confuso lenguaje
de los yacimientos, del desconsuelo de los minerales.
Esa música és cega como las raíces y és terca como las semillas.
Sabe a tierra como la boca de un cadáver. Viene e és de la tierra.
Redobla la geología. Esa música és parda como la corteza,
compacta como los diamantes. No dictamina: solo muestra la voraz
certidumbre de lo vivo. El vértigo que vá desde el sustrato a la
calamidad que grita. Esa música és el agujero que delata en los hombres
su ascendencia . Esa música és todo ese agujero, un sordo abismo que
reclama la primer soledad, lo primer llanto en la primera noche.
(Francisca Aguirre)


Sabemos que diversas circunstâncias históricas e geográficas determinaram o surgimento do Flamenco na região que conhecemos hoje como Andalucía. A invasão e a dominação da Espanha pelos mouros, a queda de Granada, a tomada da cidade pelos reis católicos, a perseguição sistemática de árabes, ciganos e judeus pela Inquisição, a cristianização imposta àqueles que permaneceram na região...

Muito da história das origens do Flamenco foi perdida, devido a estas circunstâncias. Além disso, o Flamenco sempre foi transmitido pelas famílias de forma oral, herança da cultura cigana. A documentação escrita é relativamente recente e por isso não há como afirmarmos categoricamente sobre a ordem de surgimento destes elementos.

Considera-se, hoje, que o cante flamenco foi a primeira manifestação dessa arte a surgir com toda a força da marginalização e da resistência às perseguições sofridas. Forte e gutural, como herança dos lamentos e orações cantadas dos árabes, das canções desesperadas e hipnóticas dos mouros e das queixas dos ciganos encarcerados ou foragidos.

En la puerta del cante, en el ayeo, la voz es sólo expresión pura, y suena igual que el viento entre los árboles. No ha empezado la copla todavía, pues la puerta del cante no se compone de palabras; está compuesta de sonidos, y estos sonidos no relatan nada: tiemblan; no dicen nada: cantan (...) Al escucharlos se nos desloca la carne en el cuerpo, como si el pensamiento y la atención hubiesen hecho en nosotros un movimiento brusco. En el ayeo se oye la voz de una manera distinta y principal (...) se encuentra en la antesala del día de la creación igual que se el lenguaje aún no existiera. Esta entrada del cante es su momento de más profunda y lírica intensidad. El ayeo es cante puro. (Luis Rosales)


Arcángel, cantaor, Tonás

Um músico poderia propor considerarmos o toque de uma maneira ampla, inclusive, admitindo qualquer acompanhamento percussivo. Assim, o martelo que busca ajeitar insistentemente a fibra metálica na bigorna dando cadência a um cante por Martinetes ou o som matizado de pés e palmas, dando compás a outros cantes poderiam ser argumentos interessantes que colocariam em xeque a minha suposição de que o baile teria surgido na seqüência do cante.

La guitarra,
hace llorar a los suenos.
El sollozo del as almas
perdidas,
se escapa por su boca
redonda.
Y como la tarantula
teje una gran estrella
para cazar suspiros,
que flotan en su negro
aljibe de madera.
(Frederico Garcia Lorca)



Vicente Amigo, guitarrista


Mas quero propor outro caminho. Que não é propriamente inverso porque é, justamente, por estarem no mesmo sentido que conseguimos fazer uma amarração, uma trança resisente o bastante (ao tempo e ao preconceito) com cante, toque e baile.

Dança é linguagem. Antes de polir pedras e construir abrigos o homem já se movimentava ritmicamente para se aquecer e para se comunicar. Por instinto.

Como arte a dança segue a via de expressão dos signos de movimento (com ou sem ligação musical). É a única das artes que dispensa materiais e ferramentas. É dependente apenas do corpo e da vitalidade do homem para cumprir sua função de expressão de sentimentos e vivências subjetivas.

No Flamenco prefiro acreditar, exatamente por isso, que o baile tenha surgido antes do toque de guitarra (que tem registros de incorporação ao Flamenco já no século XIX)... Não é raro presenciar manifestações repletas de aire executadas naturalmente por artistas flamencos que simplesmente braceam enquanto cantam... Não deveria ser diferente nos tempos mais remotos do Flamenco. Se pensarmos no baile, levando em consideração essa carga notável de inspiração nos movimentos que adornam o cante, expressando sentimentos, ainda que maneira rudimentar, também podemos pensar em considerar seu surgimento numa fase anterior ao toque da guitarra.

É claro que essa afirmação pode parecer tendenciosa aos olhos do leitor, afinal, sou bailarina e não musicista. Mas logicamente não estou levando em consideração o baile como conhecemos nos dias atuais. A minha linha de raciocínio está pautada no corpo e, através dele, na manifestação de suas experiências.

Baile, baile.
El baile es un sufrir,
Es alegría y es pena,
Es templez y temperamento,
Se lleva dentro,
Es leal y traicionero,
Emite sonidos claros
Y emite sonidos negros.
Porque el baile es un genio
Y los genios andan sueltos.
(Anônimo)


Manuela Carrasco, bailaora, Soleá por Bulerías

Vamos conversar sobre isso?

Manu Ángel, bailarina, coreógrafa e professora de Flamenco assina este post.

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